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domingo, 18 de junho de 2017

O filho predileto

PICT0215Jacó contou com a predileção de sua mãe Rebeca, enquanto Esaú com a predileção de seu pai Isaque - eu tive a sorte de ser o predileto tanto de papai como de mamãe.

Eu sei, o que parece ser uma bênção pode se tornar numa maldição, como foi no caso de José, preferido de seu pai Israel, e por isso odiado por seus irmãos… Sem dúvida a predileção não é um fardo leve de se carregar. Mas sempre contei com a generosidade dos meus irmãos, o que tornou essa tarefa agradável.

Já no meu nascimento tive a graça e a alegria de vir ao mundo no dia exato do aniversário de papai, seu 38º aniversário. Fui recebido em festa! E a cada festa de aniversário de papai lá estava eu sorridente para parabenizar e ser parabenizado.

Como não poderia ser diferente a cara de um era o focinho do outro. Mal saíamos de casa e lá estava o frentista do posto de gasolina, o vendedor da mercearia, a balconista da farmácia, o padre, não importa quem, para dizer: “nossa é seu filho, é a cara do senhor!” E eu naturalmente estufava o peito e olhávamos contentes um para o outro.

Papai gostava de cuidar da horta. E lá estávamos juntos, eu por ele carinhosamente apelidado de o “menino do dedo verde” onde eu punha a mão florescia!

Não quero dizer que com isso meus irmãos eram negligenciados. Não, senhoras e senhores. Eles estavam bem no páreo dessa corrida pela conquista do coração daqueles dois gigantes da simpatia.

Minha irmã mais velha, por exemplo, então uma talentosíssima e linda menina fazia meu velho estar sempre aos elogios. Uma vez ela ganhou um prêmio de pintura a óleo promovido pelo Senac e deixou-nos todos orgulhosos, especialmente papai. Era a cada ano um diploma de aluno destaque que trazia para casa. Como filha mais velha foi a que brindou os velhos com as primícias e os desafios e descobertas deste mundo então novo da maternidade e paternidade. Além disso assumia tarefas e responsabilidades, naturais de uma filha “mais grandinha” e nos ensinava, a nós o menorzinhos, coisas sobre o céu, a terra a água e o mar. Meus pais evidentemente se derretiam de amor pela sua primogênita.

Comigo, menino homem, tinha minha mãe um carinho todo especial. Na verdade era um carinho recíproco e exclusivo. Eu era o “muito carinhoso da mamãe”. No seu poema “meus dois amores” que ela dedicou a mim (e a meu irmão), eu sou aquele com quem ela vivia entra tapas e beijos. O que é mais que lógico. Como o notou o famoso psicólogo Storr, “somente quando há uma agressividade intensa entre dois indivíduos, pode-se mostrar amor”.

Obviamente meu irmão era um rival a altura como é deixado subentendido no desfecho do citado poema, “sou equânime e terrivelmente apaixonada pelos dois”. E ali ela enumera as muitas virtudes do meu querido irmão. Um cara, desde pequenininho, prestativo, consciente, com um elevado senso de justiça, serviço e altruísmo invejáveis. Qualidades que o tempo só fez aprimorar. Não é de se estranhar que meus pais tinham uma verdadeira e grande admiração para o primogênito dos meninos.

Ali estávamos nós os três primeiros filhos, ramos brotados daquela união bonita e singular. Alimentados pela mesma seiva, princípios de criação que meu pai fazia questão de enumerar: Deus, amor e trabalho. E logo surgiram mais dois rebentos. Foi quando pensei que minha predileção poderia ser ameaçada.

No início achei que teria que defender meu território. Ledo engano… Fui percebendo que o carinho que os velhos dedicavam a mim tangenciava a incondicionalidade, e assim me senti mais seguro para tornar-me um aliado e amigo das pequenas. O que só causou espanto e admiração de meus pais. Como pode-se imaginar, a tarefa não era difícil e só contribuía para que eu ganhasse mais pontos.

Vi que os dois bajulavam e adoravam aquela pequerrucha a tratavam com atenção especial. Mas intuía também que ali estava uma alma simples e bondosa. Então o gesto de meus pais não passava de mera justiça e reconhecimento. Minha irmã, foi constantemente uma amiga pessoal, não só minha, não só de meus outros irmãos mas de vários privilegiados que tiveram a sorte de encontrá-la no caminhar da vida. Foi justamente seu desprendimento, sua alegria em viver e em repartir seu viver com outros que a tornou um tesouro impar para meus pais.

A caçula trouxe-me a coroa e o selo da predileção, ao ser o escolhido para batizá-la. Eu, com sete anos, o padrinho daquela pequenininha. Meus pais deviam bem saber o que estavam fazendo. José ganhou um manto e quase foi despedaçado pelos irmãos, eu a honra do apadrinhamento. Mas depois com o passar das décadas, e a sabedoria que só o tempo trás, refleti melhor, quem estava na verdade sendo privilegiada era a pequena que, modéstia a parte, estava tendo-me como padrinho – eu, a futura ovelha desgarrada, o único protestante, o evangélico da família. Se meus pais então não soubessem o que estavam fazendo, pelo menos Deus deveria ter algo em mente!

O fato é que a pequena já foi abençoada desde seu batizado. Recebeu não só o carinho próprio à rapinha do taxo, mas era cortejada e disputada por cada um de seus “grandes” irmãos. Cultivada num ambiente assim, de abundante amor e cuidados, veio a se tornar numa das pessoas mais mansas e equilibradas que conheço. Por isso talvez tenha obtido dos velhos lugar e tratamento especial. Com ela, eles não poderiam se dar o luxo de repetir os erros (que não foram muitos), já cometidos pelo menos uma vez com algum de nós. As teorias e práticas educacionais testadas e praticadas em cada um de nós, desde recém nascidos até a adolescência, estavam agora finalmente aprimoradas e prontas para serem aplicadas na pequena. O resultado não poderia ter sido melhor. Vivia intensamente a teoria de Storr.

Mas nem mesmo essa foi capaz de fazer com que a predileção escapasse de minhas mãos.

Assim, carrego comigo pela vida afora estas duas singelas convicções. A de que meus pais me amavam mais do qualquer um dos meus irmãos; e a de que eles amavam qualquer um dos meus irmãos exatamente o mesmo tanto quanto eles me amavam…